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Miriam “Zenzi” Makeba morre aos 76 anos

Miriam “Zenzi” Makeba, uma voz contra o apartheid, morreu a 10 de Novembro, com 76 anos

Ela disse aos jornalistas que era tímida. Quando Nelson Mandela veio conhecer a banda à qual ela pertencia, nos anos 50, ela ficou sentada no canto e deixou a conversa para os homens. Anos mais tarde, quando foi apresentada a John Kennedy na Casa Branca, ela ficou estupefacta com a ideia de que “alguém insignificante”, uma “passarinho”, tinha segurado a mão branca e macia do presidente. A sua voz falada era fina, leve e aguda, uma voz de formiga, como ela considerava. Nunca soou tão fina ou tímida como quando se sentou sozinha, em 1963, num vasto auditório das Nações Unidas, uma jovem mulher num vestido discreto, explicando os males do apartheid a uma assembleia repleta de cadeiras em cabedal vazias.

Todas as suas vivências e a sua educação ensinaram-na a manter-se reservada. Foi silenciada nos seus primeiros dias, enquanto a sua mãe a amamentava na prisão na qual tinha sido confinada por fabricar e vender cerveja ilegalmente. Manteve o seu silêncio enquanto adolescente, servindo de ama a crianças e fazendo tarefas domésticas para brancos que olhavam para ela como se lhes pertencesse. (Na sua primeira viagem à Europa, em 1959, ficou admirada ao ver mulheres brancas transportando fardos e homens brancos abrindo valas, com lenços suados à volta das suas cabeças). Após dar espetáculos nas tabernas de Sophiatown, uma ilha de estradas de terra batida e uma cultura negra turbulenta nos subúrbios brancos de Joanesburgo, ela sabia que tinha de sair pelas traseiras para evitar misturar-se com os brancos.

No entanto, algo acontecia com Miriam Makeba sempre que começava a cantar. Após deambular para o palco, mirando os seus sapatos de salto alto, subitamente endireitava as costas, fletia os músculos, atirava a cabeça para trás e soltava um sorriso incandescente. O seu corpo forte e ágil contorcia e vibrava. Maneava os ombros e rodava as ancas. Ela, altiva e soberba, dançava e cantava com um olhar bravio e alegre.

Miriam Makeba conseguia elevar a sua voz como um cantor de ópera, mas também sussurrava, rugia, sibilava, grunhia e gritava. Ela conseguia cantar enquanto fazia os estalidos glotais característicos da língua Xhosa. Estalindo, batendo palmas, dançando ou sonhando, rindo ou triste, ela parecia conter toda a força, vivacidade, sensualidade e a beleza tórrida de África, assim como todos os seus sons. Após o espanto sobre a razão pela qual a fariam “carregar todo um continente”, ela aceitava alegremente que ela mesma era a “Mãe África”.

Quando faleceu, ela estava em campanha em Itália para reivindicar o direito à manifestação contra a Máfia. No entanto, a música pura, simples, aparentemente apolítica, permaneceu a sua arma de primeira linha. O que a música fez por ela, no coro do Kilnerton Training Institute ou à frente dos Manhattan Brothers nos fumarentos shebeens, tabernas ilegais da África do Sul, em Sophiatown, também podia fazer para cada membro das comunidades oprimidas e despojados. A distância, tal como o exílio, não lhe fazia diferença. Sempre que subia ao palco, resplandecente no seu brocado dourado, chapéus altos ou cingida com uma cintilante pele de leopardo, ela soltava o poder da música, capaz de arrebatar, chocar, elevar e de libertar homens e mulheres.

Source: Miriam “Zenzi” Makeba, a voice against apartheid, died on November 10th, aged 76